Para divulgar a música experimental sergipana, estivemos entrevistando algumas pessoas fundamentais dessa vertente. Esta primeira entrevista foi concedida a Alessandro Santana, que além de produzir filmes experimentais, vem há um bom tempo propagando psicodelias sonoras na Clister e na Música das Cinzas.
Somatonal
Alessandro
Santana, no começo dos anos 90, você estava presente na “cena” hardcore
sergipana, tendo tocado em algumas bandas desta vertente. O que o levou a criar
o experimental Clister em 2001 com o Bruno Pinheiro?
Resposta:
Apesar de tocar em algumas bandas do
cenário HC de Aracacity, sempre me interessei pela música experimental, apesar
do pouco acesso à materiais do gênero nos 90´s. Nessa época eu já fazia alguns experimentos
cortando e colando fitas k7, ligando pedais de distorção num teclado Casio
vagabundo, obtendo outras sonoridades, e um pouco mais tarde, abriu-se uma loja
de discos aqui, a BR Records, que tinha alguns discos experimentais, passei a
gravar algumas fitas e viajar muito nos sons. A partir daí achei que seria um
segmento interessante pra pesquisa sonora, mas era uma coisa meio “solta”, o
negocio era brincar com os sons. Cheguei até a incorporar um tanto dessa
brincadeira sonora nas gravações de estúdio da banda Plasma, na qual toquei
entre 1994 e 1996. Vale abrir um
parêntese aqui para o grande racha no movimento Anarcopunk em 1996,que depois
deste, me afastei das bandas, grupos e coletivos políticos, passando a me
dedicar a estas pesquisas musicais.
Em 2001, já
estudando na UFS, conheci o Bruno e não lembro como cargas d´água começou a
Clister, mas provavelmente por vontade de tocar e rapidamente nos vimos fazendo
improvisos com guitarra e teclado. O Bruno tinha algumas músicas e podíamos
fazer à 13 anos atrás com um computador e sua placa de som onboard, e nossas referências lo-fi.
Somatonal
Somatonal
Como o
público aracajuano recebeu Clister?
Resposta:
Sinceramente não sei como o público recebeu isso aí na época, mas era
algo diferencial no cenário musical local. Chegamos a fazer umas 5 ou 6 apresentações ao vivo, das quais muitas destas
estavam ligadas à projetos que envolviam artes plásticas (tocamos em galeria e
eventos de Arte a exemplo do projeto in-out
do artista plástico Fábio Sampaio, ou fazendo trilha sonora ao vivo para
performances artísticas e vídeo de arte), daí prevejo que nossa música ficou
associada à trabalhos de trilha sonora, talvez pelo desconhecimento do público
com a livre improvisação por exemplo. Aos poucos fomos abandonando as letras e
entrando no âmbito da música instrumental, até que acabamos por ter um conflito
interno e eu segui com minhas experiências dando origem ao projeto individual
Música das Cinzas, que completa 10 anos agora em 2014. Ainda em 2014, voltei a
me encontrar com o Bruno Pessoalmente e depois de uma breve troca de idéias,
resolvemos lançar ainda este ano um material que estava guardado, o que seria o
último álbum que nunca saiu: mais maduro, gravações melhores... e assim pra
promover esse retorno à Clister, a Faz o que Pode produtora resolveu também
fazer um vídeo intitulado VIDEOTRIP https://vimeo.com/90576791 com algumas dessas músicas mais
recentes, até então desconhecidas pelo público.
Link para ouvir
Somatonal
Música das
Cinzas surgiu como uma proposta diferente da Clister?
Resposta:
Na verdade, Música das cinzas era um projeto despretensioso que ainda sem
nome, coexistiu com e como a Clister, pois algumas dessas composições que fiz
sozinho entre 2000 e 2004 foram publicadas nas primeiras demos da Clister,
quando definitivamente em 2004 compilei o que não tinha sido publicado ainda
resultando no CD-R “música das cinzas”, e daí a pesquisa foi ficando mais séria
e intensa a partir do segundo trabalho.
Pré Música das Cinzas
No primeiro trabalho da Clister, sem
título, duas músicas são dessa fase; no segundo trabalho “Patética / Este é o
outro lado”, o outro lado é inteiramente de composições de minha autoria, que
podemos. São obras claramente identificáveis como pré-Música das Cinzas.
Somatonal
Você esteve
à frente de um programa ultra vanguardista em Sergipe, o Vanguarda, que foi
transmitido na Aperipê FM, levando para os espectadores John Cage, Stockhausen,
Smetak e afins. Fale um pouco sobre esse momento auspicioso na História das
rádios sergipanas.
Resposta:
Fui convidado
pelo diretor da Aperipê FM, à época, Patrick Torquato, que me ofereceu a
proposta de fazer este programa. Era uma época de reformulação da rádio que
tinha na sua programação uma série de programas “especiais” diários entre 8 e
10 da noite que ia do Rock ao clássico, passando pelo Jazz e... Música
Contemporânea. Aceitei o serviço voluntário e por uns 3 anos apresentei o
programa, catolicamente todo domingo (risos). Foi mais de um cento de programas
onde o ouvinte vez ou outra era provocado com obras extremas, algo que ia entre
“4:33” do John Cage ao harsh noise do
Merzbow (pra te dar uma ideia das dimensões de extremos). O programa também procurava muito enfocar a
música contemporânea brasileira, o que me fez ter contato com compositores
contemporâneos do Brasil inteiro, e alguns são parceiros de muitos trabalhos
audiovisuais meus até hoje.
Além disso,
o programa tinha um caráter didático, que lançava informações sobre a cena
brasileira, sobre as composições, os compositores, situando o espectador nas circunstâncias
em que as obras foram concebidas. Isso era bacana, pois agregava à minha
pesquisa musical, além de informar os espectadores sobre essa ‘nova música’,
que não é nem tão nova assim (era um recorte da última década do século XIX em
diante). Mas, como toda obrigação não remunerada fica chata, cansei, pois dava
muito trabalho, encontrar informações, pesquisar compositores, muito material
em inglês... Daí, parei. Quando deixa de ser prazeroso, perde a graça.
Para ouvir o Música das cinzas:
https://soundcloud.com/musicadascinzas/
Clister Videotrips: https://vimeo.com/90576791
Vídeo música das cinzas:
https://www.youtube.com/watch?v=uBFABiD13zw



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